domingo, maio 28, 2017

Mais um testemunho contado por Aristides Duarte no Facebook

"A fúria do chefe da Brigada Silva Carvalho, da PIDE,  era indescritível, pois além de me insultar e deixar a cara inchada, cuspiu-me três vezes para a cara".
Com oito anos, Maria Custódia Chibante, natural do Couço, concelho de Coruche, lia o jornal República para as vizinhas ouvirem. Com doze ou treze anos, já se sentia revoltada com o facto de na sua terra existir meia dúzia de grandes proprietários e o resto da população passar fome. Também não conseguia compreender  a razão pela qual não podia estudar e ser professora, que era o seu sonho.
A 27 de Maio de 1962, Maria Custódia Chibante (na foto, em 2017) foi presa pela PIDE, às 5 horas da manhã. Militante do Partido Comunista, foi uma das primeiras mulheres a ser torturada como um homem. Nunca vergou perante as torturas a que foi sujeita, mas compreende quem falou: “As que falaram não sofreram menos, penso até que sofreram mais nas mãos deles e que depois ficaram com uma dor cá dentro para o resto da vida”.
"O primeiro interrogatório foi-nos feito em Caxias com ameaças e gritos. Ainda me lembro de uma senhora, Antónia Gaudêncio do Condado de Palma, de mais de 50 anos, mulher do campo e analfabeta, mas alma nobre e aberta, ao entrar na sala depois do interrogatório, dizer-nos com lágrimas nos olhos: “Sabem, não soube responder ao que me perguntaram, porque nunca tinha ouvido aquelas palavras, e um deles disse-me um palavrão e perguntou-me se eu sabia o que era”. Talvez isto não interesse, mas é para dar uma ideia da falta de moral de que a PIDE era dotada."
A mulher PIDE que me interrogou foi de tal maneira brutal que fiquei negra da cintura até à curva da perna. Deu-me tantas bofetadas na cara que quase deixei de ver do olho esquerdo devido ao inchaço. Disse-me, cinicamente, que já estava “à Camões”. Quando tentei defender a cara, foi tal a dor ao receber a pancada do cassetete na mão que pensei que estava partida. A mão ficou toda esverdeada e inerte, só com a outra a conseguia elevar. As pancadas na nuca são horríveis, e deu-me tantas com um tipo de cutelo que me dava a sensação de a testa abrir. Aquela mulher mais parecia uma fera do que um ser humano, pegava-me pelo cabelo e fazia-me andar de um lado para o outro com tanta força que quando me largava quase caía. Eu penteava-me a seguir e o cabelo arrancado era aos montes. Esta minha aparente calma ao fazer isto deixava-a furiosa."

Antes do 25 Abril de 1974 era assim.
Mas agora em plena liberdade há pessoas que acham que se devia fazer o mesmo a quem toca guitarra...

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